Sempre que foi possível colocamos os discos que mais se destacaram ao longo de cada ano fazendo referência aos discos que atingiram os três primeiros lugares. No caso dos que atingiram o primeiro lugar indicamos o nº de semanas que estiveram em primeiro lugar. A referência é feita tendo em conta a data em que o disco é editado ou quando atinge a posição mais elevada.
Muitas vezes há falhas em vários anos por não termos acesso a todas as tabelas dessas datas.
A revista "Música & Som" começou a ser editada em 1977. As tabelas de vendas entre 1976 e 1983 foram feitas com base em dados da referida revista. Apesar do número de lojas consultadas ser limitada funcionava como uma amostra das vendas desses anos. Essas tabelas chegaram a ser publicadas na revista Billboard. Como não tivemos acesso a todas as tabelas haverá muitos outros discos que se destacaram nesses anos.
Antes de 1977 havia alguns jornais que publicavam, nem sempre de uma forma regular, as listas dos discos mais vendidos com base em consultas a algumas lojas de discos.
Nem todas as editoras fazem parte da Associação Fonográfica Portuguesa (Est. 1989) que é quem divulga as tabelas que consultamos. A primeira associação deste género apenas apareceu em 1976 e antes não havia atribuição de galardões dos discos mais vendidos. As tabelas divulgadas no programa "Top Disco" iniciaram-se em 01 de Outubro de 1984.
A partir de 1984 e até 1992 recorremos ao jornal Blitz (iniciado em Novembro desse ano) como fonte das tabelas semanais. No início era publicada a tabela dos 20 singles e 20 álbuns e com a indicação do lugar ocupado na semana anterior o que poderia solucionar algumas falhas. A partir de determinada fase passaram a ser divulgados apenas os tops 10 de cada tabela, sem a indicação da posição ocupada na semana anterior e infelizmente muitas das tabelas foram repetidas durante várias semanas.
Entre 1990 e 1997 não foi possível ter acesso a grande parte das tabelas mesmo assim optamos por colocar a informação em nosso poder e que poderá ser melhorada mais tarde.
Na internet apenas existem tabelas de vendas a partir de 2003 e mesmo assim com algumas falhas. Apenas em 1984 começaram a ser feitas tabelas com um universo mais alargado de lojas consultadas.
O facto de um disco ter estado muitas semanas em primeiro lugar pode não ter grande significado caso as vendas desse período não sejam importantes ao longo do ano.
Um disco pode ter grandes vendas sem atingir o nº 1 pois podem existir outros discos a vender muito na mesma altura.
Há discos que podem ser dos mais vendidos em mais do que um ano.
Um disco pode atingir os primeiros lugares, estar pouco tempo na tabela e não vender grande quantidade de discos apesar de ter atingido o 1º ou 2º lugar.
Há artistas que vendem bem em pouco tempo devido à forte adesão dos admiradores desse artista.
A atribuição de discos de platina não significa vendas de discos pois apenas representam as unidades colocadas no mercado. Por vezes há discos que acabam por não vender tanto como o que era esperado face ao perfil desse artista.
Por vezes foi usual a atribuição de galardões em duplicado pelo facto do disco ser duplo. Este facto impede que se faça uma comparação imediata, ao longo dos anos, com base nesse factor.
As actualizações do blog não serão frequentes pois a informação na nossa posse já aqui foi colocada. No entanto há muita informação que poderia complementar a que já existe.
Aceitam-se informações que permitam melhorar a análise dos anos já indicados ou mesmo de outros.
uma cotação em função da procura, se não classifica discos, classifica o público comprador - A Mosca, 03/05/1969
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quinta-feira, 27 de maio de 2010
domingo, 9 de maio de 2010
Made In Portugal
Até que a morte os separe?
Quem vende mais? Madredeus ou Quim Barreiros? Cidália Moreira ou Resistência? E será que gostavam de conviver e trocar galanteios num mesmo programa? A partir de Março, a RTP propõe-se resolver estes e outros dilemas.
O próximo mês traz a promessa de uma nova tabela de vendas fonográficas em Portugal. O que há até agora é o «top» da Associação Fonográfica Portuguesa (AFP), calculado por consultas a retalhistas e produtoras fonográficas e difundido na RTP através do programa Top Mais. Esta tabela elege semanalmente os fonogramas mais vendidos entre nós, de produção nacional ou estrangeira, mas limita-se às companhias inscritas nesta organização, sobretudo as divisões portuguesas das multinacionais.
A maior parte das pequenas companhias encontra-se, em contrapartida, ligada à Associação Fonográfica Independente (AFI), que tem, mais concretamente, 16 membros -- embora nem todos sejam produtoras de música -- e que até aqui não teve um «top» próprio. Ora, uma boa parcela da música que se grava e lança no nosso país tem origem nessas empresas e está assim à espera de ganhar expressão através da nova tabela de vendas. O primeiro passo terá sido dado por Luís Serra, secretário da AFI, e do contacto com a RTP nasceu a ideia de um programa de divulgação de um «top» supra associações, que terá por único critério tratar-se de fonogramas de produção e expressão portuguesa -- o que é suficientemente lato para incluir brasileiros e africanos que gravam no nosso país -- mais vendidos em Portugal.
A emissão do primeiro programa, segundo Joaquim Silveira, do departamento de programas da RTP, está agendada para o próximo dia 6 de Março e a série que inaugura tem previstos 13 capítulos. Cada programa, difundido ao domingo ao fim de tarde, terá a duração de cerca de meia hora, em que, além de um magazine de notícias, a dita tabela será ilustrada com a passagem de telediscos ou, na sua ausência, de registos dos artistas em estúdio. A concepção e produção foi confiada à Valentim de Carvalho, que agora está a ultimar o projecto. Os cenários não foram ainda escolhidos, a pessoa que se encarregará da apresentação também não. O mais provável é ser uma apresentadora de perfil não excessivamente popular, segundo nos confiou Francisco Vasconcelos, administrador desta produtora, que também adiantou o nome de Sofia Morais (ex-apresentadora do Pop Off e actual locutora da XFM) como possível candidata ao lugar.
Faltam cerca de 15 dias para o arranque, porém tudo está ainda por um fio. Para a AFI não há problemas, segundo o seu representante Artur Soares, que assegura que a sua associação procederá à compilação semanal dos dados fornecidos pelas companhias que representa. Mas a AFP não participará enquanto tal no novo «top», como nos explicou o seu actual presidente, Tozé Brito, também administrador da BMG Portugal. O ponto é que, como a AFP já possui a sua própria tabela de vendas oficiais, não faria sentido entrar como associação numa outra.
Mas o «top» que está para vir, por outro lado, também é do seu interesse, como forma complementar de expor os seus catálogos. Assim, a AFP liberta as suas associadas para individualmente participarem na constituição da dita tabela. Não é menos evidente que, por uma questão de estratégia, ninguém vai querer ficar de fora. Contudo, ainda nenhuma das divisões locais de multinacionais que lançam música portuguesa assinou o protocolo de adesão ao programa da RTP, e toda a gente está à espera do projecto que vai sair dos estúdios Valentim de Carvalho.
Luís Maio / Público, 15/02/1994
A verdade é que, para mal dos nossos pecados, o top de música portuguesa reunindo todas as editoras em 1994 foi liderado pela Discossete, nomeadamente com Quim Barreiros, e pela Movieplay com Dulce Pontes e Frei Hermano da Câmara.
Luís Maio, 17/02/1995
Sinopse do programa:
É o único programa da televisão portuguesa que dá atenção exclusiva à música de produção nacional. Já desde há quatro anos e todas as semanas.
"Made in Portugal" dedica toda a sua atenção à música portuguesa sem olhar a nomes ou géneros musicais. É que, aqui, quem manda são os espectadores, e a música de "Made in Portugal" é escolhida segundo uma lista de preferências por eles votada pelo telefone.
Todos os domingos, ao princípio da tarde, teremos a oportunidade de rever os rostos mais consagrados da música portuguesa, ao mesmo tempo que vamos conhecendo os novos valores que vão aparecendo na nossa cena musical.
Produção Valentim de Carvalho; Apresentação: Carlos Ribeiro
Fonte: RTP
Comentários:
Pergunta: Em que é que um programa como o "Made in Portugal" e o Carlos Ribeiro contribuiram para a tua carreira?
João Pedro Pais: Temos de lá ir, é um programa com que eu não me identifico mas, infelizmente, para se vender discos em Portugal tem de se ir a programas, ter de se ir a espectáculos, porque Portugal não é um mercado de música, o disco mais vendido até hoje só vendeu 300 mil unidades e somos 10 milhões.
Chat com João Pedro País no portal Sapo
No programa "Made In Portugal" acabaram por ser divulgados nomes como Dulce Pontes (a Movieplay nunca fez parte da AFP), Quim Barreiros na fase Discossete ou Ágata, Fernando Correia Marques ou Tony Carreira da editora Espacial que nessa altura não pertencia à AFP, bem como artistas de outras editoras mais pequenas. O programa acabaria por terminar alguns anos depois. Acabou por coincidir com a fase em que a música popular teve mais impacto.
Quem vende mais? Madredeus ou Quim Barreiros? Cidália Moreira ou Resistência? E será que gostavam de conviver e trocar galanteios num mesmo programa? A partir de Março, a RTP propõe-se resolver estes e outros dilemas.
O próximo mês traz a promessa de uma nova tabela de vendas fonográficas em Portugal. O que há até agora é o «top» da Associação Fonográfica Portuguesa (AFP), calculado por consultas a retalhistas e produtoras fonográficas e difundido na RTP através do programa Top Mais. Esta tabela elege semanalmente os fonogramas mais vendidos entre nós, de produção nacional ou estrangeira, mas limita-se às companhias inscritas nesta organização, sobretudo as divisões portuguesas das multinacionais.
A maior parte das pequenas companhias encontra-se, em contrapartida, ligada à Associação Fonográfica Independente (AFI), que tem, mais concretamente, 16 membros -- embora nem todos sejam produtoras de música -- e que até aqui não teve um «top» próprio. Ora, uma boa parcela da música que se grava e lança no nosso país tem origem nessas empresas e está assim à espera de ganhar expressão através da nova tabela de vendas. O primeiro passo terá sido dado por Luís Serra, secretário da AFI, e do contacto com a RTP nasceu a ideia de um programa de divulgação de um «top» supra associações, que terá por único critério tratar-se de fonogramas de produção e expressão portuguesa -- o que é suficientemente lato para incluir brasileiros e africanos que gravam no nosso país -- mais vendidos em Portugal.
A emissão do primeiro programa, segundo Joaquim Silveira, do departamento de programas da RTP, está agendada para o próximo dia 6 de Março e a série que inaugura tem previstos 13 capítulos. Cada programa, difundido ao domingo ao fim de tarde, terá a duração de cerca de meia hora, em que, além de um magazine de notícias, a dita tabela será ilustrada com a passagem de telediscos ou, na sua ausência, de registos dos artistas em estúdio. A concepção e produção foi confiada à Valentim de Carvalho, que agora está a ultimar o projecto. Os cenários não foram ainda escolhidos, a pessoa que se encarregará da apresentação também não. O mais provável é ser uma apresentadora de perfil não excessivamente popular, segundo nos confiou Francisco Vasconcelos, administrador desta produtora, que também adiantou o nome de Sofia Morais (ex-apresentadora do Pop Off e actual locutora da XFM) como possível candidata ao lugar.
Faltam cerca de 15 dias para o arranque, porém tudo está ainda por um fio. Para a AFI não há problemas, segundo o seu representante Artur Soares, que assegura que a sua associação procederá à compilação semanal dos dados fornecidos pelas companhias que representa. Mas a AFP não participará enquanto tal no novo «top», como nos explicou o seu actual presidente, Tozé Brito, também administrador da BMG Portugal. O ponto é que, como a AFP já possui a sua própria tabela de vendas oficiais, não faria sentido entrar como associação numa outra.
Mas o «top» que está para vir, por outro lado, também é do seu interesse, como forma complementar de expor os seus catálogos. Assim, a AFP liberta as suas associadas para individualmente participarem na constituição da dita tabela. Não é menos evidente que, por uma questão de estratégia, ninguém vai querer ficar de fora. Contudo, ainda nenhuma das divisões locais de multinacionais que lançam música portuguesa assinou o protocolo de adesão ao programa da RTP, e toda a gente está à espera do projecto que vai sair dos estúdios Valentim de Carvalho.
Luís Maio / Público, 15/02/1994
A verdade é que, para mal dos nossos pecados, o top de música portuguesa reunindo todas as editoras em 1994 foi liderado pela Discossete, nomeadamente com Quim Barreiros, e pela Movieplay com Dulce Pontes e Frei Hermano da Câmara.
Luís Maio, 17/02/1995
Sinopse do programa:
É o único programa da televisão portuguesa que dá atenção exclusiva à música de produção nacional. Já desde há quatro anos e todas as semanas.
"Made in Portugal" dedica toda a sua atenção à música portuguesa sem olhar a nomes ou géneros musicais. É que, aqui, quem manda são os espectadores, e a música de "Made in Portugal" é escolhida segundo uma lista de preferências por eles votada pelo telefone.
Todos os domingos, ao princípio da tarde, teremos a oportunidade de rever os rostos mais consagrados da música portuguesa, ao mesmo tempo que vamos conhecendo os novos valores que vão aparecendo na nossa cena musical.
Produção Valentim de Carvalho; Apresentação: Carlos Ribeiro
Fonte: RTP
Comentários:
Pergunta: Em que é que um programa como o "Made in Portugal" e o Carlos Ribeiro contribuiram para a tua carreira?
João Pedro Pais: Temos de lá ir, é um programa com que eu não me identifico mas, infelizmente, para se vender discos em Portugal tem de se ir a programas, ter de se ir a espectáculos, porque Portugal não é um mercado de música, o disco mais vendido até hoje só vendeu 300 mil unidades e somos 10 milhões.
Chat com João Pedro País no portal Sapo
No programa "Made In Portugal" acabaram por ser divulgados nomes como Dulce Pontes (a Movieplay nunca fez parte da AFP), Quim Barreiros na fase Discossete ou Ágata, Fernando Correia Marques ou Tony Carreira da editora Espacial que nessa altura não pertencia à AFP, bem como artistas de outras editoras mais pequenas. O programa acabaria por terminar alguns anos depois. Acabou por coincidir com a fase em que a música popular teve mais impacto.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Portugal Não Escapa à Crise da Indústria Discográfica
Mais uma apreensão, na sexta-feira passada, de discos piratas, desta vez em Lisboa, veio sublinhar a situação crítica que a indústria discográfica atravessa actualmente. Os seus principais responsáveis estão preocupados com este recrudescimento da pirataria, mas não escondem que o verdadeiro problema reside na chegada ao fim do ciclo de vida do CD. Entretanto, no segundo trimestre deste ano, as editoras portuguesas venderam menos 150 mil fonogramas relativamente a idêntico período do ano passado. No dia em que se assinala o Dia Mundial da Música, o PÚBLICO passa em revista os principais sintomas da crise da indústria discográfica em Portugal.
Depois de vários anos a crescer a um ritmo muito acima da média europeia, a indústria discográfica portuguesa começa a manifestar os primeiros sinais sérios de crise. Distribuidores, retalhistas e produtores fonográficos atravessam hoje uma situação sem precedentes, depois de, na década de noventa, o mercado português ter crescido a uma taxa média de dois dígitos.
A conjugação de vários acontecimentos terá levado a uma situação muito crítica, sobretudo para um mercado pequeno e frágil como o português, bem afastado dos centros onde se tomam as decisões verdadeiramente relevantes para a indústria fonográfica. O surgimento dos suportes digitais (CD, MiniDisc, MP3...) terá alterado significativamente os dados do problema, ao permitir cópias (quase) iguais aos originais. Cerca de 16 anos depois da introdução do disco compacto, qualquer agente da indústria discográfica gostaria, nos dias que correm, de ver resolvida a premente questão do suporte que irá suceder ao disco compacto.
A CRISE
Os dados recentemente publicados pela Associação Fonográfica Portuguesa dão sinais óbvios de que a crise se instalou também em Portugal
Se, nos mercados mais desenvolvidos, os efeitos de alguma massificação do MP3, mas sobretudo dos CD graváveis, já tinham deixado marcas, só este ano o mercado português começou a sentir seriamente os efeitos de uma nova pirataria, e os dados recentemente publicados pela Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) dão sinais óbvios de que a crise se instalou também em Portugal. No segundo trimestre deste ano, as editoras portuguesas venderam menos 150 mil fonogramas relativamente a idêntico período do ano passado - valores que, ainda assim, se encontram sobrestimados, escondendo a verdadeira dimensão da recessão que se instalou na indústria discográfica.
Daniel de Sousa, principal responsável da multinacional Warner Music em Portugal, salienta existirem dois acontecimentos essenciais para compreender os valores recentemente publicados: "O grupo de empresas Modelo/Continente representa quase 50 por cento das nossas vendas e todos os anos promove uma Feira da Música, para a qual compra uma quantidade apreciável de discos. Este ano, a Feira da Música do Modelo/Continente aconteceu no primeiro semestre, pelo que, se retirássemos essas vendas das estatísticas, a redução de vendas seria bem maior". Por outro lado, acrescenta Daniel de Sousa, "este ano os lançamentos foram muito fortes, o que fez com que pareça que o mercado cresceu. A realidade é que o mercado está a encolher. Já sabemos um pouco mais sobre as vendas dos últimos meses e a verdade é que o mercado andou para trás em Julho e Agosto. E vai continuar a andar para trás até ao fim do ano."
A NOVA PIRATARIA
Ao contrário do que acontecia com as cassetes, a difusão dos CD piratas é tão grande que é impossível às autoridades competentes controlá-la.
As causas desta inversão no crescimento dos mercados discográficos estão bem identificadas. O advento do digital permitiu, antes de mais nada, que a qualidade das cópias as aproximasse bastante dos originais, pelo que a pirataria conhece desde há três anos para cá um novo surto, só comparável ao dos anos de ouro da cassete pirata. Apesar de formatos digitais como os ficheiros MP3 serem bastante mediatizados, a preocupação dos responsáveis da indústria discográfica centra-se sobretudo nos CD-R - discos compactos virgens que permitem a gravação de discos pré-gravados.
Eduardo Simões, secretário-geral da AFP, confirma que a nova pirataria já está instalada e a operar em Portugal. Apesar de não existirem estatísticas que permitam tirar conclusões sobre a venda de CD virgens em Portugal - ou sequer sobre a penetração de gravadores de CD -, os seus efeitos na facturação das editoras portuguesas são notórios e estão, de alguma forma, localizados: "Estão a florescer inúmeros pequenos negócios ao nível dos pátios das escolas, onde se vendem CD a 500 escudos ou a mil escudos. Há também indícios de uma outra pirataria, bastante mais organizada, inclusivamente por etnias, que vende CD piratas. Sabemos que há grupos de ciganos que estão metidos na pirataria, tal como antes existiu um grupo de emigrantes oriundos do Bangladesh envolvido nesse tipo de acção, o que não deixa de ser preocupante, no sentido de existirem negócios organizados no ramo da propriedade intelectual." Estas contrafacções, adianta o responsável "têm um nível de profissionalização ainda embrionário, mas também já vi livretos completos impressos em papel 'couché'. Porém, o que aparece mais são cópias de fraquíssima qualidade gráfica. Em termos de som, também há disparidades que diminuem a qualidade do audio."
Ao contrário do que acontecia com as cassetes piratas, a disseminação e pulverização dos "fabricantes" de CD piratas é tão grande que se torna praticamente impossível às autoridades competentes controlar a difusão desta forma de pirataria. As apreensões efectuadas são sempre uma gota num imenso oceano, mesmo que não esteja a ser contabilizada a chamada "cópia privada".
UM NOVO SUPORTE
Ainda não há o sucessor para o CD que a indústria precisa. O futuro é a assinatura por cabo?
Uma perspectiva mais geral permitirá, todavia, perceber que a indústria fonográfica se encontra perante um dilema. Depois do advento do digital, uma autêntica caixa de Pandora que permitiu vender as mesmas obras em suporte CD, os seus responsáveis vêem-se agora perante surtos de pirataria que ameaçam colocar um ponto final no ciclo de vida do CD.
O mais grave para a indústria fonográfica é ainda não ter encontrado uma forma legítima e eficaz que suceda ao disco compacto, apesar das maiores editoras do mundo estarem a preparar serviços de distribuição digital de música como os já anunciados "Musicnet" e "Pressplay". Se, de início, a introdução do CD levou a que os melómanos "traduzissem" as suas discotecas de vinilo para CD - fazendo com que a indústria vendesse as mesmas obras e crescesse seriamente -, nos últimos anos tem sido muito evidente uma recessão que ameaça alastrar.
Os primeiros sintomas foram detectados nos mercados mais maduros, em que a penetração de leitores de discos compactos é maior, como os Estados Unidos da América. No ano passado, as vendas de fonogramas decresceram 1,7 por cento em valor e caíram 4,7 por cento em quantidade no país de Madonna e Bruce Springsteen. Como se constata pela análise dos dados fornecidos pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), a queda na facturação só não foi maior devido a uma subida do preço médio a que são vendidos os fonogramas. A indústria encontra-se então diante de um pau de dois bicos: se aumenta o preço dos CD, cresce a pirataria; se baixa o preço dos CD, perde irremediavelmente em facturação.
A solução mais óbvia, mas que ainda assim não se prevê concretizável num futuro imediato, seria a opção pela distribuição digital. Porém, os dois serviços que as cinco multinacionais do disco estão a tentar levar por diante, o "Musicnet" e o "Pressplay", estão a encontrar vários obstáculos que impedem a sua massificação. Uma das maiores barreiras à implementação desses serviços será mesmo a pouca vontade dos consumidores para pagar música distribuída digitalmente, numa altura em que ainda subsistem, apesar da compra do serviço Napster por parte da multinacional BMG, uma miríade de sítios na Internet que disponibilizam música à borla, contornando os direitos devidos pela propriedade intelectual.
O RETALHO
As cadeias de lojas portuguesas com alguma dimensão, como a Valentim de Carvalho, a Strauss ou a Loja da Música, estão a atravessar uma fase muito complicada
Outro dos ramos do negócio do disco seriamente afectado pela difusão dos CD graváveis foi o retalho. Depois de, nos últimos anos, se ter assistido à abertura de várias megalojas em Lisboa e no Porto e a uma expansão generalizada das principais cadeias de lojas portuguesas, a situação inverteu-se dramaticamente. Da euforia à depressão foi um pequeno passo, sobretudo quando o retalho especializado português se deparou com a concorrência dos hipermercados e de grandes cadeias como a Fnac.
Se a experiência da Virgin foi mal sucedida - como prova o encerramento da sua megaloja nos Restauradores, em Lisboa -, a francesa Fnac conseguiu implantar-se no mercado português, superando as melhores expectativas dos seus responsáveis. As cadeias de lojas portuguesas com alguma dimensão, como a Valentim de Carvalho, a Strauss ou a Loja da Música, estão a atravessar neste momento uma fase difícil, devido à forte concorrência imposta pelos hipermercados, que seguem uma postura onde o disco é utilizado não para ganhar dinheiro, mas para atrair clientes. A loja que vive de vender discos não se pode dar a esse luxo: ou tem margem na venda dos discos ou morre. O retalho especializado, ao tentar aproximar os preços daqueles praticados nos hipermercados, começou a perder dinheiro. Algumas cadeias de lojas, segundo nos confirmou Daniel de Sousa, deixaram mesmo de pagar às editoras, pelo que esses fornecimentos foram simplesmente cortados.
A situação difícil por que passavam algumas lojas das cadeias Valentim de Carvalho e Discoteca Roma obrigou mesmo ao seu encerramento. No caso da Valentim de Carvalho, que também dispõe de uma marca de discos, a Norte Sul, tem-se assistido nos últimos tempos à debandada dos seus artistas e mesmo de alguns funcionários, pelo que a probabilidade de desactivação daquele selo parece ser eminente.
Ou seja, a crise está a levar a um redimensionamento do mercado retalhista que não espera uma reanimação nos próximos tempos. A própria Fnac, nas palavras de Rui Borges, gestor de produto, não irá continuar a sua política expansionista que, nos últimos três anos, a levou a uma bem sucedida implantação em Portugal: "A crise afecta toda a gente e o desaparecimento da concorrência também não nos ajuda a superar essa falta de mercado. As pessoas começam mesmo a desabituar-se de comprar discos. Nada disso ajuda ao crescimento e desenvolvimento do mercado. O conceito Fnac teve um grande êxito em Portugal, devido à maneira como a música e a cultura foram mostradas ao público. Porém, o nosso grande objectivo neste momento é consolidar as lojas que já existem. Queremos fazer mais e melhor, nomeadamente no que diz respeito ao atendimento. Queremos torná-lo o mais personalizado possível. Esta não é uma altura de expansão mas sim de consolidação, e só então poderemos encarar novos desafios".
UMA QUESTÃO ESTRATÉGICA
Portugal é um dos dez mercados do mundo que menos reportório nacional vende, o que aponta para uma cada vez maior dependência do estrangeiro. Algumas multinacionais podem vir a abandonar os seus escritórios em Lisboa
A crise que afecta o retalho especializado português preocupa, igualmente, as editoras instaladas em Portugal, mais que não seja por razões estratégicas. As empresas multinacionais ocupam cerca de 70 por cento do mercado, sendo a facturação relativa ao reportório nacional, no primeiro semestre deste ano, não mais do que 13 por cento. Este valor é o mais baixo de sempre, pelo que é muito claro o desinvestimento, principalmente das editoras multinacionais, nos artistas portugueses.
O risco e o custo de uma produção nacional não é compatível com a situação crítica do mercado, que assim prefere apostar em produções importadas. Se o mercado não absorve música portuguesa, a sua dependência face ao exterior é bastante maior. A época dos supercampeões de vendas como Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Delfins e Rui Veloso parece pertencer a um passado distante, sendo Portugal um dos dez mercados do mundo que menos reportório nacional vende, segundo estatísticas da revista especializada "MBI".
A responsabilidade por esta queda da popularidade da música portuguesa é, geralmente, atribuída aos media, muito especialmente à rádio, frequentemente acusada de desprezar a música nacional. O fenómeno recente das rádios formatadas e o não tão recente das "playlists" veio sublinhar essa situação que, de alguma forma, deixa de lado a música portuguesa. As editoras sentiram um risco enorme na aposta em música portuguesa e, simplesmente, desinvestiram.
A controvérsia entre editoras e estações de rádio não é portuguesa nem é de hoje. Mas não deixa de ser nítido o desinteresse das rádios portuguesas relativamente ao reportório nacional. Segundo a tabela de "airplay" produzida semanalmente pela Music Control, onde se encontram os 100 temas que mais vezes foram tocados pelas rádios portuguesas, na primeira semana de Setembro não há nenhuma canção portuguesa entre os dez temas mais cotados. O primeiro artista português a surgir na tabela são os Xutos & Pontapés, com a canção "Fim do Mês", em 15º lugar. Os portugueses que se seguem são os Anjos (34º lugar), Jorge Palma (54º), GNR (87º) e Quinta do Bill (89º), todos eles artistas com carreiras cimentadas ao longo de muitos anos. Ao desinteresse por artistas nacionais junta-se a não aposta em novos nomes, como é visível numa tabela cheia de artistas "consagrados" e liderada pelos U2.
A situação levou mesmo a alguma pressão por parte da AFP junto da Antena 3, estação de rádio pertencente à empresa pública Rádio Difusão Portuguesa (RDP), no sentido de ser alterado este estado de coisas. A Antena 3 irá apresentar uma nova grelha de programação durante o próximo mês de Outubro, onde estão consagradas várias alterações que vão de encontro aos desejos dos editores portugueses. Um situação que, no entanto, terá de ser confirmada pela nova direcção, uma vez que a nova grelha foi planeada por Jorge Alexandre Lopes, recentemente substituído por Luís Montez.
MIGUEL FRANCISCO CADETE, Público, 01/10/2001
Crise! Quanta Crise!
Os sinais de crise começaram a ser óbvios nos últimos tempos quando, nos Estados Unidos - que representam 38 por cento da venda de discos a nível mundial -, os resultados da venda de discos compactos se mostraram confrangedores
A crise da indústria fonográfica começou a fazer-se sentir nos mercados mais desenvolvidos quando, há cerca de dois anos, o crescimento do número de fonogramas vendidos se aproximou perigosamente do zero. Nos Estados Unidos da América, no ano 2000, venderam-se menos 5 por cento de cópias do que no ano anterior, enquanto na Alemanha e França as perdas ainda não ultrapassam 1,2 por cento, segundo os mais recentes dados fornecidos pelo Federação Internacional da Indústria Fonográfica.
Em Portugal, a situação foi diversa até há bem pouco tempo. Não só porque o CD chegou cá com o atraso habitual, mas também porque uma certa euforia do mercado, patente, por exemplo, na abertura de megalojas, fez com que nos anos 90 as taxas de crescimento fossem habitualmente superiores a 10 por cento. Nos últimos cinco anos da década passada, o mercado fonográfico português dobrou a sua facturação.
Porém, os sinais de crise começaram a ser óbvios nos últimos tempos quando, nos Estados Unidos - que representam 38 por cento da venda de discos a nível mundial -, os resultados da venda de discos compactos se mostraram confrangedores. O ciclo de vida do disco compacto, tudo o indica, aproxima-se do fim, como aliás o surto de nova pirataria em CD-R assinala gritantemente. Contudo, o mais preocupante é ainda não terem sido encontradas soluções que venham fazer face ao desaparecimento do CD - ainda o formato preferencial da venda de discos -, de modo a que a indústria fonográfica possa voltar a investir em novos artistas. Se a distribuição digital e, de uma forma geral, a nova economia pareciam ser a panaceia para esses problemas, as quedas sucessivas do indíce Nasdaq desde o final do ano passado vieram esmorecer a indústria, agora órfã de um suporte que lhe permita relançar a sua actividade.
O caso português, ou da indústria fonográfica portuguesa, não é obviamente para aqui chamado. A pequenez e a dependência do mercado face ao exterior impede qualquer veleidade na definição daquilo que irão ser os novos suportes para a música. No entanto, não deixa de ser preocupante que, a par da queda da facturação total, comecem também a derrapar os índices de venda de reportório nacional, que certamente implicam uma ainda maior dependência do exterior.
O desinvestimento em música portuguesa é notório em algumas editoras multinacionais como a BMG que, no primeiro semestre deste ano, viu a sua quota de reportório nacional descer até 0,91 por cento. A ameaça de abandono dos artistas locais por parte das multinacionais parece voltar a pairar, sabendo-se também que a Warner Music fechou o seu catálogo nacional logo depois de uma experiência frustrada com o grupo Ritual Tejo. E, no caso das multinacionais só dependerem de catálogos estrangeiros, serão poucas as razões que justifiquem a permanência dos seus escritórios em Lisboa. A não serem políticas. União Europeia oblige.
MIGUEL FRANCISCO CADETE, Público, 01/10/2001
Depois de vários anos a crescer a um ritmo muito acima da média europeia, a indústria discográfica portuguesa começa a manifestar os primeiros sinais sérios de crise. Distribuidores, retalhistas e produtores fonográficos atravessam hoje uma situação sem precedentes, depois de, na década de noventa, o mercado português ter crescido a uma taxa média de dois dígitos.
A conjugação de vários acontecimentos terá levado a uma situação muito crítica, sobretudo para um mercado pequeno e frágil como o português, bem afastado dos centros onde se tomam as decisões verdadeiramente relevantes para a indústria fonográfica. O surgimento dos suportes digitais (CD, MiniDisc, MP3...) terá alterado significativamente os dados do problema, ao permitir cópias (quase) iguais aos originais. Cerca de 16 anos depois da introdução do disco compacto, qualquer agente da indústria discográfica gostaria, nos dias que correm, de ver resolvida a premente questão do suporte que irá suceder ao disco compacto.
A CRISE
Os dados recentemente publicados pela Associação Fonográfica Portuguesa dão sinais óbvios de que a crise se instalou também em Portugal
Se, nos mercados mais desenvolvidos, os efeitos de alguma massificação do MP3, mas sobretudo dos CD graváveis, já tinham deixado marcas, só este ano o mercado português começou a sentir seriamente os efeitos de uma nova pirataria, e os dados recentemente publicados pela Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) dão sinais óbvios de que a crise se instalou também em Portugal. No segundo trimestre deste ano, as editoras portuguesas venderam menos 150 mil fonogramas relativamente a idêntico período do ano passado - valores que, ainda assim, se encontram sobrestimados, escondendo a verdadeira dimensão da recessão que se instalou na indústria discográfica.
Daniel de Sousa, principal responsável da multinacional Warner Music em Portugal, salienta existirem dois acontecimentos essenciais para compreender os valores recentemente publicados: "O grupo de empresas Modelo/Continente representa quase 50 por cento das nossas vendas e todos os anos promove uma Feira da Música, para a qual compra uma quantidade apreciável de discos. Este ano, a Feira da Música do Modelo/Continente aconteceu no primeiro semestre, pelo que, se retirássemos essas vendas das estatísticas, a redução de vendas seria bem maior". Por outro lado, acrescenta Daniel de Sousa, "este ano os lançamentos foram muito fortes, o que fez com que pareça que o mercado cresceu. A realidade é que o mercado está a encolher. Já sabemos um pouco mais sobre as vendas dos últimos meses e a verdade é que o mercado andou para trás em Julho e Agosto. E vai continuar a andar para trás até ao fim do ano."
A NOVA PIRATARIA
Ao contrário do que acontecia com as cassetes, a difusão dos CD piratas é tão grande que é impossível às autoridades competentes controlá-la.
As causas desta inversão no crescimento dos mercados discográficos estão bem identificadas. O advento do digital permitiu, antes de mais nada, que a qualidade das cópias as aproximasse bastante dos originais, pelo que a pirataria conhece desde há três anos para cá um novo surto, só comparável ao dos anos de ouro da cassete pirata. Apesar de formatos digitais como os ficheiros MP3 serem bastante mediatizados, a preocupação dos responsáveis da indústria discográfica centra-se sobretudo nos CD-R - discos compactos virgens que permitem a gravação de discos pré-gravados.
Eduardo Simões, secretário-geral da AFP, confirma que a nova pirataria já está instalada e a operar em Portugal. Apesar de não existirem estatísticas que permitam tirar conclusões sobre a venda de CD virgens em Portugal - ou sequer sobre a penetração de gravadores de CD -, os seus efeitos na facturação das editoras portuguesas são notórios e estão, de alguma forma, localizados: "Estão a florescer inúmeros pequenos negócios ao nível dos pátios das escolas, onde se vendem CD a 500 escudos ou a mil escudos. Há também indícios de uma outra pirataria, bastante mais organizada, inclusivamente por etnias, que vende CD piratas. Sabemos que há grupos de ciganos que estão metidos na pirataria, tal como antes existiu um grupo de emigrantes oriundos do Bangladesh envolvido nesse tipo de acção, o que não deixa de ser preocupante, no sentido de existirem negócios organizados no ramo da propriedade intelectual." Estas contrafacções, adianta o responsável "têm um nível de profissionalização ainda embrionário, mas também já vi livretos completos impressos em papel 'couché'. Porém, o que aparece mais são cópias de fraquíssima qualidade gráfica. Em termos de som, também há disparidades que diminuem a qualidade do audio."
Ao contrário do que acontecia com as cassetes piratas, a disseminação e pulverização dos "fabricantes" de CD piratas é tão grande que se torna praticamente impossível às autoridades competentes controlar a difusão desta forma de pirataria. As apreensões efectuadas são sempre uma gota num imenso oceano, mesmo que não esteja a ser contabilizada a chamada "cópia privada".
UM NOVO SUPORTE
Ainda não há o sucessor para o CD que a indústria precisa. O futuro é a assinatura por cabo?
Uma perspectiva mais geral permitirá, todavia, perceber que a indústria fonográfica se encontra perante um dilema. Depois do advento do digital, uma autêntica caixa de Pandora que permitiu vender as mesmas obras em suporte CD, os seus responsáveis vêem-se agora perante surtos de pirataria que ameaçam colocar um ponto final no ciclo de vida do CD.
O mais grave para a indústria fonográfica é ainda não ter encontrado uma forma legítima e eficaz que suceda ao disco compacto, apesar das maiores editoras do mundo estarem a preparar serviços de distribuição digital de música como os já anunciados "Musicnet" e "Pressplay". Se, de início, a introdução do CD levou a que os melómanos "traduzissem" as suas discotecas de vinilo para CD - fazendo com que a indústria vendesse as mesmas obras e crescesse seriamente -, nos últimos anos tem sido muito evidente uma recessão que ameaça alastrar.
Os primeiros sintomas foram detectados nos mercados mais maduros, em que a penetração de leitores de discos compactos é maior, como os Estados Unidos da América. No ano passado, as vendas de fonogramas decresceram 1,7 por cento em valor e caíram 4,7 por cento em quantidade no país de Madonna e Bruce Springsteen. Como se constata pela análise dos dados fornecidos pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), a queda na facturação só não foi maior devido a uma subida do preço médio a que são vendidos os fonogramas. A indústria encontra-se então diante de um pau de dois bicos: se aumenta o preço dos CD, cresce a pirataria; se baixa o preço dos CD, perde irremediavelmente em facturação.
A solução mais óbvia, mas que ainda assim não se prevê concretizável num futuro imediato, seria a opção pela distribuição digital. Porém, os dois serviços que as cinco multinacionais do disco estão a tentar levar por diante, o "Musicnet" e o "Pressplay", estão a encontrar vários obstáculos que impedem a sua massificação. Uma das maiores barreiras à implementação desses serviços será mesmo a pouca vontade dos consumidores para pagar música distribuída digitalmente, numa altura em que ainda subsistem, apesar da compra do serviço Napster por parte da multinacional BMG, uma miríade de sítios na Internet que disponibilizam música à borla, contornando os direitos devidos pela propriedade intelectual.
O RETALHO
As cadeias de lojas portuguesas com alguma dimensão, como a Valentim de Carvalho, a Strauss ou a Loja da Música, estão a atravessar uma fase muito complicada
Outro dos ramos do negócio do disco seriamente afectado pela difusão dos CD graváveis foi o retalho. Depois de, nos últimos anos, se ter assistido à abertura de várias megalojas em Lisboa e no Porto e a uma expansão generalizada das principais cadeias de lojas portuguesas, a situação inverteu-se dramaticamente. Da euforia à depressão foi um pequeno passo, sobretudo quando o retalho especializado português se deparou com a concorrência dos hipermercados e de grandes cadeias como a Fnac.
Se a experiência da Virgin foi mal sucedida - como prova o encerramento da sua megaloja nos Restauradores, em Lisboa -, a francesa Fnac conseguiu implantar-se no mercado português, superando as melhores expectativas dos seus responsáveis. As cadeias de lojas portuguesas com alguma dimensão, como a Valentim de Carvalho, a Strauss ou a Loja da Música, estão a atravessar neste momento uma fase difícil, devido à forte concorrência imposta pelos hipermercados, que seguem uma postura onde o disco é utilizado não para ganhar dinheiro, mas para atrair clientes. A loja que vive de vender discos não se pode dar a esse luxo: ou tem margem na venda dos discos ou morre. O retalho especializado, ao tentar aproximar os preços daqueles praticados nos hipermercados, começou a perder dinheiro. Algumas cadeias de lojas, segundo nos confirmou Daniel de Sousa, deixaram mesmo de pagar às editoras, pelo que esses fornecimentos foram simplesmente cortados.
A situação difícil por que passavam algumas lojas das cadeias Valentim de Carvalho e Discoteca Roma obrigou mesmo ao seu encerramento. No caso da Valentim de Carvalho, que também dispõe de uma marca de discos, a Norte Sul, tem-se assistido nos últimos tempos à debandada dos seus artistas e mesmo de alguns funcionários, pelo que a probabilidade de desactivação daquele selo parece ser eminente.
Ou seja, a crise está a levar a um redimensionamento do mercado retalhista que não espera uma reanimação nos próximos tempos. A própria Fnac, nas palavras de Rui Borges, gestor de produto, não irá continuar a sua política expansionista que, nos últimos três anos, a levou a uma bem sucedida implantação em Portugal: "A crise afecta toda a gente e o desaparecimento da concorrência também não nos ajuda a superar essa falta de mercado. As pessoas começam mesmo a desabituar-se de comprar discos. Nada disso ajuda ao crescimento e desenvolvimento do mercado. O conceito Fnac teve um grande êxito em Portugal, devido à maneira como a música e a cultura foram mostradas ao público. Porém, o nosso grande objectivo neste momento é consolidar as lojas que já existem. Queremos fazer mais e melhor, nomeadamente no que diz respeito ao atendimento. Queremos torná-lo o mais personalizado possível. Esta não é uma altura de expansão mas sim de consolidação, e só então poderemos encarar novos desafios".
UMA QUESTÃO ESTRATÉGICA
Portugal é um dos dez mercados do mundo que menos reportório nacional vende, o que aponta para uma cada vez maior dependência do estrangeiro. Algumas multinacionais podem vir a abandonar os seus escritórios em Lisboa
A crise que afecta o retalho especializado português preocupa, igualmente, as editoras instaladas em Portugal, mais que não seja por razões estratégicas. As empresas multinacionais ocupam cerca de 70 por cento do mercado, sendo a facturação relativa ao reportório nacional, no primeiro semestre deste ano, não mais do que 13 por cento. Este valor é o mais baixo de sempre, pelo que é muito claro o desinvestimento, principalmente das editoras multinacionais, nos artistas portugueses.
O risco e o custo de uma produção nacional não é compatível com a situação crítica do mercado, que assim prefere apostar em produções importadas. Se o mercado não absorve música portuguesa, a sua dependência face ao exterior é bastante maior. A época dos supercampeões de vendas como Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Delfins e Rui Veloso parece pertencer a um passado distante, sendo Portugal um dos dez mercados do mundo que menos reportório nacional vende, segundo estatísticas da revista especializada "MBI".
A responsabilidade por esta queda da popularidade da música portuguesa é, geralmente, atribuída aos media, muito especialmente à rádio, frequentemente acusada de desprezar a música nacional. O fenómeno recente das rádios formatadas e o não tão recente das "playlists" veio sublinhar essa situação que, de alguma forma, deixa de lado a música portuguesa. As editoras sentiram um risco enorme na aposta em música portuguesa e, simplesmente, desinvestiram.
A controvérsia entre editoras e estações de rádio não é portuguesa nem é de hoje. Mas não deixa de ser nítido o desinteresse das rádios portuguesas relativamente ao reportório nacional. Segundo a tabela de "airplay" produzida semanalmente pela Music Control, onde se encontram os 100 temas que mais vezes foram tocados pelas rádios portuguesas, na primeira semana de Setembro não há nenhuma canção portuguesa entre os dez temas mais cotados. O primeiro artista português a surgir na tabela são os Xutos & Pontapés, com a canção "Fim do Mês", em 15º lugar. Os portugueses que se seguem são os Anjos (34º lugar), Jorge Palma (54º), GNR (87º) e Quinta do Bill (89º), todos eles artistas com carreiras cimentadas ao longo de muitos anos. Ao desinteresse por artistas nacionais junta-se a não aposta em novos nomes, como é visível numa tabela cheia de artistas "consagrados" e liderada pelos U2.
A situação levou mesmo a alguma pressão por parte da AFP junto da Antena 3, estação de rádio pertencente à empresa pública Rádio Difusão Portuguesa (RDP), no sentido de ser alterado este estado de coisas. A Antena 3 irá apresentar uma nova grelha de programação durante o próximo mês de Outubro, onde estão consagradas várias alterações que vão de encontro aos desejos dos editores portugueses. Um situação que, no entanto, terá de ser confirmada pela nova direcção, uma vez que a nova grelha foi planeada por Jorge Alexandre Lopes, recentemente substituído por Luís Montez.
MIGUEL FRANCISCO CADETE, Público, 01/10/2001
Crise! Quanta Crise!
Os sinais de crise começaram a ser óbvios nos últimos tempos quando, nos Estados Unidos - que representam 38 por cento da venda de discos a nível mundial -, os resultados da venda de discos compactos se mostraram confrangedores
A crise da indústria fonográfica começou a fazer-se sentir nos mercados mais desenvolvidos quando, há cerca de dois anos, o crescimento do número de fonogramas vendidos se aproximou perigosamente do zero. Nos Estados Unidos da América, no ano 2000, venderam-se menos 5 por cento de cópias do que no ano anterior, enquanto na Alemanha e França as perdas ainda não ultrapassam 1,2 por cento, segundo os mais recentes dados fornecidos pelo Federação Internacional da Indústria Fonográfica.
Em Portugal, a situação foi diversa até há bem pouco tempo. Não só porque o CD chegou cá com o atraso habitual, mas também porque uma certa euforia do mercado, patente, por exemplo, na abertura de megalojas, fez com que nos anos 90 as taxas de crescimento fossem habitualmente superiores a 10 por cento. Nos últimos cinco anos da década passada, o mercado fonográfico português dobrou a sua facturação.
Porém, os sinais de crise começaram a ser óbvios nos últimos tempos quando, nos Estados Unidos - que representam 38 por cento da venda de discos a nível mundial -, os resultados da venda de discos compactos se mostraram confrangedores. O ciclo de vida do disco compacto, tudo o indica, aproxima-se do fim, como aliás o surto de nova pirataria em CD-R assinala gritantemente. Contudo, o mais preocupante é ainda não terem sido encontradas soluções que venham fazer face ao desaparecimento do CD - ainda o formato preferencial da venda de discos -, de modo a que a indústria fonográfica possa voltar a investir em novos artistas. Se a distribuição digital e, de uma forma geral, a nova economia pareciam ser a panaceia para esses problemas, as quedas sucessivas do indíce Nasdaq desde o final do ano passado vieram esmorecer a indústria, agora órfã de um suporte que lhe permita relançar a sua actividade.
O caso português, ou da indústria fonográfica portuguesa, não é obviamente para aqui chamado. A pequenez e a dependência do mercado face ao exterior impede qualquer veleidade na definição daquilo que irão ser os novos suportes para a música. No entanto, não deixa de ser preocupante que, a par da queda da facturação total, comecem também a derrapar os índices de venda de reportório nacional, que certamente implicam uma ainda maior dependência do exterior.
O desinvestimento em música portuguesa é notório em algumas editoras multinacionais como a BMG que, no primeiro semestre deste ano, viu a sua quota de reportório nacional descer até 0,91 por cento. A ameaça de abandono dos artistas locais por parte das multinacionais parece voltar a pairar, sabendo-se também que a Warner Music fechou o seu catálogo nacional logo depois de uma experiência frustrada com o grupo Ritual Tejo. E, no caso das multinacionais só dependerem de catálogos estrangeiros, serão poucas as razões que justifiquem a permanência dos seus escritórios em Lisboa. A não serem políticas. União Europeia oblige.
MIGUEL FRANCISCO CADETE, Público, 01/10/2001
sábado, 10 de abril de 2010
Crise, Crise, Crise
A crise na indústria discográfica provocada pela pirataria tem obrigado as editoras a reduzir para metade o número de funcionários e levou Isabel Amador [promotora discográfica na Warner] a sair prematuramente de uma profissão que abraçava desde os 19 anos. Consigo saíram outras dez pessoas, "da promoção à direcção, passando pelos serviços financeiros e vendedores". Hoje, Isabel tem uma loja de flores no Largo do Carmo, em Lisboa.
Nos últimos anos, a indústria discográfica em Portugal terá perdido quase metade dos seus efectivos e cerca de 50 por cento da sua facturação por culpa da pirataria, passando dos 105 milhões de euros em 2000 para os 56 milhões em 2005, segundo a Associação Fonográfica Portuguesa (AFP). Dados provisórios estimam que o mercado tenha caído mais dez por cento durante 2006 e que venha a cair mais dez em 2007. Calcula-se que cinco em cada dez discos consumidos em Portugal sejam piratas. O repertório internacional é o mais prejudicado, tendo as vendas caído quase 60 por cento em cinco anos. Já o repertório nacional caiu cerca de 30 por cento.
EDITORAS A MEIO GÁS
As editoras estão a trabalhar com os serviços mínimos. A todo-poderosa Universal (U2, Metallica, Eminem, etc.) que há cinco anos tinha 46 funcionários está hoje reduzida a 22. O mal começou lá fora e estendeu-se a Portugal. A Sony que, entretanto, se fundiu com a BMG, a EMI, a Universal, a Warner e tantas outras editoras sucumbiram à pirataria. "Hoje não conheço uma companhia no nosso País que tenha mais de 22 pessoas", adianta preocupado Tozé Brito, vice-presidente da AFP.
O homem que também dirige, em Portugal, os destinos da maior companhia discográfica do Mundo, a Universal, jamais esquecerá o dia em que teve de despedir 40 por cento dos activos da sua empresa. "Foi o pior momento da minha vida. Foi há dois anos, ainda por cima no Natal. Tive de olhar nos olhos de pessoas que estavam na empresa há muitos anos e negociar as suas saídas".
A última editora a fazer cortes foi a EMI. Em Setembro último, onze pessoas foram convidadas a rescindir, entre elas, Paula Freitas, chefe de promoção. Trabalhava na empresa há 34 anos e foi uma das pessoas que, nos idos anos 80, ajudou a promover 'Balada das Sete Saias' dos Trovante, 'Ar de Rock' de Rui Veloso ou 'Portugal na CEE' dos GNR. "Nós éramos o braço direito dos artistas", desabafa.
Privada aos 50 anos do que gosta de fazer, "nova para a reforma e velha para arranjar emprego", como diz, recorda a batalha que teve para convencer Marco Paulo a gravar os 'Dois Amores' ("ele odiava aquela música", confidencia) e a manhã em que Rui Veloso não resistiu ao despertar matinal para participar num programa de Júlio Isidro e adormeceu, em casa, na banheira. "Foi acordado por um dos nossos promotores", recorda. Paula Freitas começou na EMI como dactilógrafa e lembra-se do dia em que David Ferreira, actual presidente da companhia, chegou vindo de uma loja de discos da Av. de Roma.
A crise da indústria discográfica começou a sentir-se nos EUA no ano 2000, a notar-se na Europa em 2002 e no final desse ano em Portugal. "Quando a Warner começou a reduzir as viagens de promoção, a cortar nos voos e nos hotéis começámos a perceber que as coisas estavam más", recorda Isabel Amador.
DOIS TIROS NO PÉ
Quando, em finais dos anos 80, chegou a integrar as brigadas da GNR e andou pelas feiras do País inteiro atrás da cassete pirata a ajudar as autoridades a distinguir as verdadeiras das falsas, João Afonso, à data funcionário da famosíssima CBS (Bob Dylan e Cheap Trick, entre outros) – em Portugal representada pela Rádio Triunfo –, ainda estava longe de adivinhar que a pirataria pudesse vir a ser responsável por uma crise tão grave na indústria.
Há dois anos, João Afonso foi convidado a rescindir com a Sony Music, sucessora da CBS. A companhia que se fundiu com a BMG despediu 15 pessoas em 2004, mais dez no início de 2005 e fechou, entretanto, o seu armazém em Portugal. João Afonso que desempenhava o cargo de director de marketing estratégico para as compilações jazz e world music foi apanhado na onda. Hoje, trabalha com os músicos Jorge Fernando e Ana Moura e desenvolve projectos para televisão.
Primeiro, devido à pirataria física e depois, mais recentemente, pela pirataria digital, a indústria fonográfica está a atingir a sua maior crise de sempre, mas não estará isenta de culpa. "A determinada altura a indústria cometeu vários erros e deu vários tiros no pé. Passou do formato "Vinil" para o CD sem se acautelar com tudo o que estava envolvido", diz João Afonso. "A Sony e a Philips, por exemplo, lançaram aparelhos para gravar CD e, como se não bastasse, a indústria tornou acessível a todos os CDR gravar. Esse foi o grande cancro. E depois, para piorar tudo, veio a internet", diz.
Em Portugal, as apreensões são cada vez mais, mas ainda há muito a fazer, até porque a pirataria, apesar de ser crime punível com pena de prisão até três anos e de deixar cadastro, está presente em todo o lado. Dados da Inspecção Geral das Actividades Culturais (IGAC), organismo do Estado que combate a pirataria, mostram, por exemplo, que 26 por cento dos DVD, CD e CD-R piratas em Portugal são vendidos no local de trabalho.
"DISCOS NÃO SÃO CAROS"
Culpa-se a internet, mas será que o preço dos discos, considerado por muitos, inclusive pelos próprios músicos, demasiado elevado, será também responsável pela crise na indústria? Para Eduardo Simões, director-geral da AFP, essa é uma desculpa de mau pagador.
"Obviamente que o preço de qualquer coisa é sempre caro quando é possível ter à borla. O que seria de uma bomba de gasolina, se ao fundo da rua houvesse outra a oferecer combustível?", pergunta aquele responsável que lembra que "o preço de um disco não é caro" porque engloba "direitos de autor e dos artistas, aluguer de estúdio, instrumentos, pagamento a músicos, produtor, custos de embalagem, de promoção, marketing e margem de lucro da editora e do retalhista".
Miguel Azevedo, Correio da Manhã, 09/12/2006
Indústria da música
Multinacionais do disco em crise
A crise nas multinacionais dos discos afecta as suas representantes em Portugal
Não se tem falado de outra coisa nos últimos anos - crise na indústria da música. Mas esse cenário parecia uma realidade abstracta em Portugal. Para parte considerável do público, designações como "iPod" ou "download" continuam a ser encaradas com estranheza, como se representassem uma realidade distante.
As editoras também acordaram tarde para o fenómeno. Há três anos, a BMG portuguesa reduziu efectivos e as decisões começaram a ser partilhadas com Madrid, mas foi nos últimos meses que os sinais concretos de que a crise está a afectar as multinacionais do disco a operar em Portugal (EMI, Universal, Sony, Warner e BMG) se adensaram. Sentem-no na pele funcionários e artistas. Os primeiros são despedidos ou vivem na ansiedade de o virem a ser e os segundos vêem reduzir-se as hipóteses de edição dos seus trabalhos.
Recentemente, a EMI despediu 1500 funcionários em todo o mundo e reduziu em 20 por cento o seu catálogo. Os efeitos sentiram-se em Portugal. Antes, os escritórios da Warner em Lisboa sofreram do mesmo síndroma, e as decisões passarem a ser partilhadas ao nível da Penísula Ibérica.
Na Universal aconteceram reajustamentos em forma de dispensas. Ninguém sai ileso. As editoras argumentam que os novos formatos digitais lhes estragam o negócio, mas ao mesmo tempo avançam para a criação de plataformas de "downloads" legais - a Universal portuguesa anunciou esta semana que deseja avançar para essa solução ainda este ano. Isso não impede que a política de repressão se imponha, e nos EUA foram já conduzidas a tribunal 1500 pessoas. Ao mesmo tempo, um estudo científico recente diz que não existe correlação directa entre troca de ficheiros mp3 na Net e quebra no número de discos vendidos. As opiniões dividem-se e a confusão instala-se.
O cenário de crise afecta também as pequenas editoras e distribuidoras portuguesas (MVM, Zona Música, Sabotage, Vidisco, Som Livre, Megamúsica, entre outras) e propõem-se medidas: que o IVA dos discos (actualmente de 19 por cento) seja reduzido - algo que a Espanha vai pôr em prática, ficou a saber-se esta semana -, ou que o preço dos CDs baixe. Em simultâneo ensaiam-se alternativas, com o argumento de que as grandes editoras não apostam em novos valores portugueses. Outros modelos de distribuição são tentados. Em desespero, até os jornais servem de veículo distribuidor. Uma óptima ideia não isenta de efeitos perversos. Eliminam-se intermediários, os discos são vendidos a preço reduzido, mas colocam-se os jornais em competição com distribuidoras e lojas de discos, nivelando discos de qualidade com outros duvidosos, alguns vendidos a retalho. No meio de tanta incerteza, a única certeza que existe é que indústria está em mudança acelerada. Ou melhor, já mudou.
Acesso à música imaterial
Imagine o leitor este cenário: está na FNAC, olha à sua volta e a rodear os poucos CDs existentes estão meia dúzia de nostálgicos que disputam o último álbum de Björk, em edição luxuosa e limitada. Ao lado encontramos plataformas e servidores "online" que permitem o acesso directo à música imaterial. Aglomeram-se pessoas que querem conectar os leitores de música virtual, que lhes vão permitir aceder a temas avulsos. Não é ficção, é a realidade, dentro de poucos anos. Os especialistas falam num período temporal entre 5 a 10 anos. Como foi possível chegar aqui?
Tudo começou quando um engenheiro alemão, Karlheinz Brandenburg, descobriu uma forma de comprimir um ficheiro musical sem perda de qualidade. O formato, baptizado mp3, foi colocado à disposição do público em 1994, mas popularizar-se-ia alguns anos depois, através da Net e de "sites" como o Napster, permitindo a troca de ficheiros entre particulares. Estava aberta uma "caixa de pandora" que aliava duas dimensões novas: o acesso gratuito à música, via troca, e a desmaterialização do suporte. Uma desmaterialização que, bem vistas as coisas, começou com a introdução do CD, vendido como inalterável, imune à erosão, quase estéril. Depois do orgânico vinil, a música perdeu corpo com o CD e virou imaterial com o mp3.
Depois do Napster, entram em acção outros "sites" que permitem troca de ficheiros como o Gnutella, Kazaa ou Soulseek e uma geração que nunca comprou CDs nasce. A venda de discos cai e a indústria reage pela via da criminalização, argumentando que existe uma ligação directa entre descarregamentos na Net e menos discos vendidos. Segundo a Associação da Indústria Discográfica Americana - que, desde o princípio do ano, já conduziu 1500 indivíduos a tribunal -, as pessoas que fazem "downloads" reduziram em 33 por cento as compras de CDs. Mas o assunto não é pacífico.
Uma equipa de investigadores de Harvard e da Universidade da Carolina do Norte publicou um estudo que veio comprovar, com legitimidade cientifica, aquilo que outros defendiam com argumentos do senso comum: não existe uma ligação mecânica entre descarregamentos de música na rede e decréscimo das vendas de discos. Como acontece nestes casos, deverão surgir outros estudos que proclamarão o contrário. Seja como for, independentemente de quem tem razão, o facto é que a música está cada vez mais ligada a outros suportes - jogos vídeos, filmes, telemóveis, publicidade, DVDs. A música é cada vez mais um argumento, não para vender discos, mas sim "hardware" - máquinas, ordenadores ou "ipod". O problema é encontrar formas de pagar aos criadores.
Neste contexto, a indústria tem que repensar estratégias e começa a fazê-lo lentamente. Nos EUA, serviços de "downloads" legais como o iTunes revelam-se um sucesso - apesar de existirem casos de fracasso -, e na Europa começa a perceber-se que as vendas digitais são uma realidade que veio para ficar, pelo menos até à descoberta de um novo formato, tal como aconteceu nos anos de ouro da explosão do CD. Enquanto isso não acontecer, a transição para um novo modelo económico anuncia-se doloroso para as multinacionais do disco. Em Portugal, por exemplo, é preocupante que não existam catálogos nacionais fortes e ágeis. Essa é, afinal, uma das justificações para que as multinacionais operem num mercado de fronteira como o português.
Para editoras, criadores e melómanos, o mundo digital tem novos contornos. Compram-se menos discos, mas escuta-se mais música, de estilos e épocas cada vez mais variadas. Ou seja, o digital trouxe novos desafios - alguns dolorosos e difíceis de enfrentar -, mas está também a permitir a criação de novas opções, modificando hábitos, ampliando práticas e permitindo uma melhor e maior acessibilidade à música.
Vítor Belanciano, Público, 02/05/2004
Nos últimos anos, a indústria discográfica em Portugal terá perdido quase metade dos seus efectivos e cerca de 50 por cento da sua facturação por culpa da pirataria, passando dos 105 milhões de euros em 2000 para os 56 milhões em 2005, segundo a Associação Fonográfica Portuguesa (AFP). Dados provisórios estimam que o mercado tenha caído mais dez por cento durante 2006 e que venha a cair mais dez em 2007. Calcula-se que cinco em cada dez discos consumidos em Portugal sejam piratas. O repertório internacional é o mais prejudicado, tendo as vendas caído quase 60 por cento em cinco anos. Já o repertório nacional caiu cerca de 30 por cento.
EDITORAS A MEIO GÁS
As editoras estão a trabalhar com os serviços mínimos. A todo-poderosa Universal (U2, Metallica, Eminem, etc.) que há cinco anos tinha 46 funcionários está hoje reduzida a 22. O mal começou lá fora e estendeu-se a Portugal. A Sony que, entretanto, se fundiu com a BMG, a EMI, a Universal, a Warner e tantas outras editoras sucumbiram à pirataria. "Hoje não conheço uma companhia no nosso País que tenha mais de 22 pessoas", adianta preocupado Tozé Brito, vice-presidente da AFP.
O homem que também dirige, em Portugal, os destinos da maior companhia discográfica do Mundo, a Universal, jamais esquecerá o dia em que teve de despedir 40 por cento dos activos da sua empresa. "Foi o pior momento da minha vida. Foi há dois anos, ainda por cima no Natal. Tive de olhar nos olhos de pessoas que estavam na empresa há muitos anos e negociar as suas saídas".
A última editora a fazer cortes foi a EMI. Em Setembro último, onze pessoas foram convidadas a rescindir, entre elas, Paula Freitas, chefe de promoção. Trabalhava na empresa há 34 anos e foi uma das pessoas que, nos idos anos 80, ajudou a promover 'Balada das Sete Saias' dos Trovante, 'Ar de Rock' de Rui Veloso ou 'Portugal na CEE' dos GNR. "Nós éramos o braço direito dos artistas", desabafa.
Privada aos 50 anos do que gosta de fazer, "nova para a reforma e velha para arranjar emprego", como diz, recorda a batalha que teve para convencer Marco Paulo a gravar os 'Dois Amores' ("ele odiava aquela música", confidencia) e a manhã em que Rui Veloso não resistiu ao despertar matinal para participar num programa de Júlio Isidro e adormeceu, em casa, na banheira. "Foi acordado por um dos nossos promotores", recorda. Paula Freitas começou na EMI como dactilógrafa e lembra-se do dia em que David Ferreira, actual presidente da companhia, chegou vindo de uma loja de discos da Av. de Roma.
A crise da indústria discográfica começou a sentir-se nos EUA no ano 2000, a notar-se na Europa em 2002 e no final desse ano em Portugal. "Quando a Warner começou a reduzir as viagens de promoção, a cortar nos voos e nos hotéis começámos a perceber que as coisas estavam más", recorda Isabel Amador.
DOIS TIROS NO PÉ
Quando, em finais dos anos 80, chegou a integrar as brigadas da GNR e andou pelas feiras do País inteiro atrás da cassete pirata a ajudar as autoridades a distinguir as verdadeiras das falsas, João Afonso, à data funcionário da famosíssima CBS (Bob Dylan e Cheap Trick, entre outros) – em Portugal representada pela Rádio Triunfo –, ainda estava longe de adivinhar que a pirataria pudesse vir a ser responsável por uma crise tão grave na indústria.
Há dois anos, João Afonso foi convidado a rescindir com a Sony Music, sucessora da CBS. A companhia que se fundiu com a BMG despediu 15 pessoas em 2004, mais dez no início de 2005 e fechou, entretanto, o seu armazém em Portugal. João Afonso que desempenhava o cargo de director de marketing estratégico para as compilações jazz e world music foi apanhado na onda. Hoje, trabalha com os músicos Jorge Fernando e Ana Moura e desenvolve projectos para televisão.
Primeiro, devido à pirataria física e depois, mais recentemente, pela pirataria digital, a indústria fonográfica está a atingir a sua maior crise de sempre, mas não estará isenta de culpa. "A determinada altura a indústria cometeu vários erros e deu vários tiros no pé. Passou do formato "Vinil" para o CD sem se acautelar com tudo o que estava envolvido", diz João Afonso. "A Sony e a Philips, por exemplo, lançaram aparelhos para gravar CD e, como se não bastasse, a indústria tornou acessível a todos os CDR gravar. Esse foi o grande cancro. E depois, para piorar tudo, veio a internet", diz.
Em Portugal, as apreensões são cada vez mais, mas ainda há muito a fazer, até porque a pirataria, apesar de ser crime punível com pena de prisão até três anos e de deixar cadastro, está presente em todo o lado. Dados da Inspecção Geral das Actividades Culturais (IGAC), organismo do Estado que combate a pirataria, mostram, por exemplo, que 26 por cento dos DVD, CD e CD-R piratas em Portugal são vendidos no local de trabalho.
"DISCOS NÃO SÃO CAROS"
Culpa-se a internet, mas será que o preço dos discos, considerado por muitos, inclusive pelos próprios músicos, demasiado elevado, será também responsável pela crise na indústria? Para Eduardo Simões, director-geral da AFP, essa é uma desculpa de mau pagador.
"Obviamente que o preço de qualquer coisa é sempre caro quando é possível ter à borla. O que seria de uma bomba de gasolina, se ao fundo da rua houvesse outra a oferecer combustível?", pergunta aquele responsável que lembra que "o preço de um disco não é caro" porque engloba "direitos de autor e dos artistas, aluguer de estúdio, instrumentos, pagamento a músicos, produtor, custos de embalagem, de promoção, marketing e margem de lucro da editora e do retalhista".
Miguel Azevedo, Correio da Manhã, 09/12/2006
Indústria da música
Multinacionais do disco em crise
A crise nas multinacionais dos discos afecta as suas representantes em Portugal
Não se tem falado de outra coisa nos últimos anos - crise na indústria da música. Mas esse cenário parecia uma realidade abstracta em Portugal. Para parte considerável do público, designações como "iPod" ou "download" continuam a ser encaradas com estranheza, como se representassem uma realidade distante.
As editoras também acordaram tarde para o fenómeno. Há três anos, a BMG portuguesa reduziu efectivos e as decisões começaram a ser partilhadas com Madrid, mas foi nos últimos meses que os sinais concretos de que a crise está a afectar as multinacionais do disco a operar em Portugal (EMI, Universal, Sony, Warner e BMG) se adensaram. Sentem-no na pele funcionários e artistas. Os primeiros são despedidos ou vivem na ansiedade de o virem a ser e os segundos vêem reduzir-se as hipóteses de edição dos seus trabalhos.
Recentemente, a EMI despediu 1500 funcionários em todo o mundo e reduziu em 20 por cento o seu catálogo. Os efeitos sentiram-se em Portugal. Antes, os escritórios da Warner em Lisboa sofreram do mesmo síndroma, e as decisões passarem a ser partilhadas ao nível da Penísula Ibérica.
Na Universal aconteceram reajustamentos em forma de dispensas. Ninguém sai ileso. As editoras argumentam que os novos formatos digitais lhes estragam o negócio, mas ao mesmo tempo avançam para a criação de plataformas de "downloads" legais - a Universal portuguesa anunciou esta semana que deseja avançar para essa solução ainda este ano. Isso não impede que a política de repressão se imponha, e nos EUA foram já conduzidas a tribunal 1500 pessoas. Ao mesmo tempo, um estudo científico recente diz que não existe correlação directa entre troca de ficheiros mp3 na Net e quebra no número de discos vendidos. As opiniões dividem-se e a confusão instala-se.
O cenário de crise afecta também as pequenas editoras e distribuidoras portuguesas (MVM, Zona Música, Sabotage, Vidisco, Som Livre, Megamúsica, entre outras) e propõem-se medidas: que o IVA dos discos (actualmente de 19 por cento) seja reduzido - algo que a Espanha vai pôr em prática, ficou a saber-se esta semana -, ou que o preço dos CDs baixe. Em simultâneo ensaiam-se alternativas, com o argumento de que as grandes editoras não apostam em novos valores portugueses. Outros modelos de distribuição são tentados. Em desespero, até os jornais servem de veículo distribuidor. Uma óptima ideia não isenta de efeitos perversos. Eliminam-se intermediários, os discos são vendidos a preço reduzido, mas colocam-se os jornais em competição com distribuidoras e lojas de discos, nivelando discos de qualidade com outros duvidosos, alguns vendidos a retalho. No meio de tanta incerteza, a única certeza que existe é que indústria está em mudança acelerada. Ou melhor, já mudou.
Acesso à música imaterial
Imagine o leitor este cenário: está na FNAC, olha à sua volta e a rodear os poucos CDs existentes estão meia dúzia de nostálgicos que disputam o último álbum de Björk, em edição luxuosa e limitada. Ao lado encontramos plataformas e servidores "online" que permitem o acesso directo à música imaterial. Aglomeram-se pessoas que querem conectar os leitores de música virtual, que lhes vão permitir aceder a temas avulsos. Não é ficção, é a realidade, dentro de poucos anos. Os especialistas falam num período temporal entre 5 a 10 anos. Como foi possível chegar aqui?
Tudo começou quando um engenheiro alemão, Karlheinz Brandenburg, descobriu uma forma de comprimir um ficheiro musical sem perda de qualidade. O formato, baptizado mp3, foi colocado à disposição do público em 1994, mas popularizar-se-ia alguns anos depois, através da Net e de "sites" como o Napster, permitindo a troca de ficheiros entre particulares. Estava aberta uma "caixa de pandora" que aliava duas dimensões novas: o acesso gratuito à música, via troca, e a desmaterialização do suporte. Uma desmaterialização que, bem vistas as coisas, começou com a introdução do CD, vendido como inalterável, imune à erosão, quase estéril. Depois do orgânico vinil, a música perdeu corpo com o CD e virou imaterial com o mp3.
Depois do Napster, entram em acção outros "sites" que permitem troca de ficheiros como o Gnutella, Kazaa ou Soulseek e uma geração que nunca comprou CDs nasce. A venda de discos cai e a indústria reage pela via da criminalização, argumentando que existe uma ligação directa entre descarregamentos na Net e menos discos vendidos. Segundo a Associação da Indústria Discográfica Americana - que, desde o princípio do ano, já conduziu 1500 indivíduos a tribunal -, as pessoas que fazem "downloads" reduziram em 33 por cento as compras de CDs. Mas o assunto não é pacífico.
Uma equipa de investigadores de Harvard e da Universidade da Carolina do Norte publicou um estudo que veio comprovar, com legitimidade cientifica, aquilo que outros defendiam com argumentos do senso comum: não existe uma ligação mecânica entre descarregamentos de música na rede e decréscimo das vendas de discos. Como acontece nestes casos, deverão surgir outros estudos que proclamarão o contrário. Seja como for, independentemente de quem tem razão, o facto é que a música está cada vez mais ligada a outros suportes - jogos vídeos, filmes, telemóveis, publicidade, DVDs. A música é cada vez mais um argumento, não para vender discos, mas sim "hardware" - máquinas, ordenadores ou "ipod". O problema é encontrar formas de pagar aos criadores.
Neste contexto, a indústria tem que repensar estratégias e começa a fazê-lo lentamente. Nos EUA, serviços de "downloads" legais como o iTunes revelam-se um sucesso - apesar de existirem casos de fracasso -, e na Europa começa a perceber-se que as vendas digitais são uma realidade que veio para ficar, pelo menos até à descoberta de um novo formato, tal como aconteceu nos anos de ouro da explosão do CD. Enquanto isso não acontecer, a transição para um novo modelo económico anuncia-se doloroso para as multinacionais do disco. Em Portugal, por exemplo, é preocupante que não existam catálogos nacionais fortes e ágeis. Essa é, afinal, uma das justificações para que as multinacionais operem num mercado de fronteira como o português.
Para editoras, criadores e melómanos, o mundo digital tem novos contornos. Compram-se menos discos, mas escuta-se mais música, de estilos e épocas cada vez mais variadas. Ou seja, o digital trouxe novos desafios - alguns dolorosos e difíceis de enfrentar -, mas está também a permitir a criação de novas opções, modificando hábitos, ampliando práticas e permitindo uma melhor e maior acessibilidade à música.
Vítor Belanciano, Público, 02/05/2004
segunda-feira, 1 de março de 2010
Novo blog
O objectivo é indicar os discos que mais se destacaram em Portugal aos longos dos anos.
Depois de colocada as informações que temos sobre cada ano (o que em muitos casos não é muita) limitaremo-nos a actualizar alguma da informação existente.
Poderemos colocar outras informações mas apenas esporádicamente sem necessidade de abordar esses temas com qualquer tipo de regularidade.
Optamos por escolher um nome que ficou nas nossas memórias. O "Top Disco" marcou o aparecimento das primeiras tabelas de venda com maior credibilidade e mesmo para quem não gostasse do programa é fácil de associar o nome com as características e objectivos do programa.
Quem tiver dados adicionais pode colocar essa informação nos comentários ou enviá-la para nós por outras vias.
O objectivo não é colocar as vendas semanais de discos, mesmo que na internet só existam dados oficiais desde o início de 2003.
Depois de colocada as informações que temos sobre cada ano (o que em muitos casos não é muita) limitaremo-nos a actualizar alguma da informação existente.
Poderemos colocar outras informações mas apenas esporádicamente sem necessidade de abordar esses temas com qualquer tipo de regularidade.
Optamos por escolher um nome que ficou nas nossas memórias. O "Top Disco" marcou o aparecimento das primeiras tabelas de venda com maior credibilidade e mesmo para quem não gostasse do programa é fácil de associar o nome com as características e objectivos do programa.
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O objectivo não é colocar as vendas semanais de discos, mesmo que na internet só existam dados oficiais desde o início de 2003.
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