Vendas extraordinárias do último álbum levam a acreditar num "crescimento consolidado do mercado" da música, defende o diretor da BLITZ num texto publicado no Expresso Diário.
The Endless River , o álbum que os Pink Floyd publicaram no dia 10 de novembro, atingiu vendas incríveis na primeira semana em que esteve nos escaparates portugueses. O disco chegou de surpresa, vinte anos depois do seu derradeiro álbum, The Division Bell , mas fez valer o peso do grupo de David Gilmour e Nick Mason no mercado nacional.
De acordo com o boletim de vendas da Associação Fonográfica Portuguesa, na semana 46 do ano de 2014, venderam-se 5114 unidades de The Endless River.
O número é extraordinário quando comparado com os valores obtidos pelos discos que nos últimos meses têm frequentado o primeiro lugar da tabela de vendas e que se quedam por algumas centenas de exemplares. Mesmo nesta semana, quando se aproxima a quadra natalícia e o mercado aquece por tradição, o segundo lugar do top é ocupado por Canto , de Carminho, a larga distância, somando entre vendas físicas e digitais, apenas 806 cópias vendidas.
A façanha dos Pink Floyd, para Rui Chen, coordenador de Marketing Estratégico da Warner Music Portugal, explica-se por duas razões: "o artista - e a sua qualidade - que não gravava há vinte anos" e, por outro lado, "o target: o consumidor deste grupo, o fã, pertence a um público mais adulto, que aprecia o objeto CD e que gosta de comprar".
No caso de The Endless River, não só as vendas em CD foram espectaculares - 4508 cópias - como as vendas digitais também se revelaram "notáveis". No caso do catálogo da Warner, só os Coldplay superaram, com Ghost Stories , as vendas digitais de The Endless River numa semana. O primeiro ultrapassou os 800 downloads, enquanto o álbum dos Pink Floyd chegou às 606 unidades na semana passada.
Por estes dias, já se sabe, o CD tem morte anunciada. Os jornais estão cheios de notícias sobre o definhamento desse suporte lançado em meados dos anos 80 e sublinham o surgimento de novas formas de consumir música, como as plataformas de streaming (Spotify, Beats da Apple ou Music Key da Google). Porém, essas notícias parecem, de acordo com o que sucedeu na semana passada nas lojas de discos portuguesas, manifestamente exageradas.
Do lado da editora, Rui Chen entende estes resultados "por se dirigirem a um público mais maduro, com poder de compra e com gosto pelo CD", o que é tudo menos a imagem estereotipada do consumidor de música jovem, apostado no download ilegal e em busca de novas tendências. Esse público "maduro e que gosta de comprar", justifica certamente este êxito dos Pink Floyd. Da mesma maneira que, sabe o Expresso, é muito provável que o primeiro lugar do top desta semana, a ser revelado na próxima quarta-feira, seja ocupado por Four , o mais recente disco dos One Direction. Ou seja, a confirmar-se, trata-se da situação diametralmente oposta, em que os discos são comprados, também por uma clientela madura mas, neste caso, a pedido de um público juvenil.
No meio, ou seja, entre os pais que compram Pink Floyd e os filhos que querem os One Direction, ainda há um imenso vazio. E é exatamente esse vazio que tem justificado a crise que a indústria fonográfica tem sentido nos últimos 15 anos, mercê do advento digital e da chegada do download ilegal como umas das formas preferidas de consumo de música. Esse é o mantra que ouvimos há mais de uma década. Contudo, os últimos dados conhecidos para Portugal contrariam decididamente essa imagem.
Segundo Miguel Carretas, da Associação Fonográfica Portuguesa, "
há um crescimento consolidado do mercado nos últimos seis meses". Talvez ainda mais surpreendentemente, o mercado português, em setembro deste ano, cresceu 30% face ao período homólogo de 2013. Mas há mais valores capaz de deixar perplexo o mais cético dos observadores:
as vendas deste ano ("year to date") estão no verde e há fortes indícios de que o mercado português de música gravada irá crescer em 2014. A confirmarem-se estas suspeitas, seria a primeira vez que nos últimos 12 anos tal aconteceria.
A explicação para este inusitado surto da venda de música podem encontrar-se, muito simplesmente, na reorganização de duas das principais editoras portuguesas, a Sony Music Portugal e, sobretudo, a Warner Music Portugal, que em 2013 passaram por períodos de séria instabilidade. Por outro lado, não deixa de ser crível que a conquista de terreno por parte das plataformas de streaming, que além do modelo de publicidade para o consumo gratuito estão a fazer vingar modelos de assinatura, comece a funcionar como o mais bem sucedido ataque ao download ilegal. Vale a pena recordar que o mercado português valia, em 2002, 105 milhões de euros e que no ano passado encolheu para 16,5 milhões de euros.
A outra explicação para este ressurgimento encontra-se, obviamente, nos artistas e no poder da sua música. É natural que o mercado aqueça quando os grandes nomes, com enorme historial, editam discos. É o caso dos Pink Floyd. Em Portugal, é
necessário recuar até 2012 para encontrar um disco que vendeu mais na estreia do que The Endless River . Nas duas últimas semanas desse ano, o álbum Essencial de Tony Carreira, chegou a valores, de acordo com informação prestada pela AFP, ainda superiores aos do último álbum dos Pink Floyd. Mas esse disco de Tony Carreira, o recordista de concertos no Pavilhão Atlântico , hoje MEO Arena, com, nada mais nada menos do que quinze datas, pode, à semelhança do álbum dos Pink Floyd considerar-se uma exceção.
É preciso recuar a 2009 para encontrar um artista estrangeiro que tenha vendido mais unidades numa semana: No Line on the Horizon , dos U2, esclareceu a AFP, faz do disco dos Pink Floyd o campeão de vendas dos últimos cinco anos. Mas The Endless River não conquistou apenas o primeiro lugar em Portugal. Também chegou ao lugar cimeiro no Reino Unido, Alemanha, França, Canadá, Holanda, Bélgica, Hungria, Aústria, Suíça, Dinamarca, Noruega, Nova Zelândia, Croácia e Eslovénia. Os valores de que a AFP dispõe "apontam para o álbum dos Pink Floyd, na mesma semana, ter vendido mais exemplares em Portugal que no muito maior mercado espanhol. Isto em termos de número absoluto de unidades."
A razão prática do bom sucesso do lançamento de The Endless River deve-se, para Rui Chen, ao facto de "tudo ter sido feito muito atempadamente, desde julho. Este foi um projeto assente numa estratégia bem definida e clara para nós", referindo-se então às instruções recebidas da Parlophone, a etiqueta dos Pink Floyd representada em Portugal pela Warner.
Nas semanas que antecederam a chegada às lojas de The Endless River , os Pink Floyd beneficiaram de capas na revista Blitz e no caderno Atual do Expresso. Quanto à rádio, a M80 foi o parceiro privilegiado para esta ação, tendo também decorrido campanhas na TSF. A Warner Music Portugal, divulgou na sua newsletter, capaz de chegar a cerca de 150 mil utilizadores, a edição do disco, que teve como parceiro quase natural a Fnac com a sua rede de lojas e espaço online, possibilitando a sua pré-vendas com vários dias de antecedência. Um dos conteúdos fundamentais disponibilizados pela editora para a promoção deste disco foi a entrevista a David Gilmour e Nick Mason, os dois sobreviventes, que aqui deixamos na íntegra.
Texto: Miguel Cadete, Expresso Diário, 21/11/2014
Ler mais:
http://blitz.sapo.pt/pink-floyd-batem-recordes-em-portugal-por-miguel-cadete=f94495#ixzz3KAPkMfi3
ED -
http://expresso.sapo.pt
Tabela disponiblizada nas redes sociais em 08/11/2014.
TOP DE VENDAS PORTUGUÊS
SEMANA 44/2014
Posição - Grupo: Álbum - Unidades vendidas (vendas físicas + vendas digitais)
1 - U2: SONGS OF INNOCENCE - 575
2 - PAULA FERNANDES: ENCONTROS PELO CAMINHO - 492
3 - TAYLOR SWIFT: 1989 - 377
4 - ENRIQUE IGLESIAS: SEX AND LOVE - 342
5 - ANSELMO RALPH: A DOR DO CUPIDO - 340
6 - VIOLETTA: A MÚSICA É O MEU MUNDO - 287
7 - MARIZA: BEST OF - 267
8 - RODRIGO LEÃO: O ESPÍRITO DE UM PAÍS - 237
9 - LED ZEPPELIN: LED ZEPPELIN IV - 212
10 - D.A.M.A: UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIO - 197
11 - PAULO GONZO: DUETOS - 166
12 - LED ZEPPELIN: HOUSES OF THE HOLY - 159
13 - LEONARD COHEN: POPULAR PROBLEMS - 158
14 - D8: PREFÁCIO - 150
15 - ANA MOURA: DESFADO - 149
16 - COLDPLAY: GHOST STORIES - 139
17 - LEANDRO: SOU UM HOMEM FELIZ - 137
18 - PANDA E OS CARICAS: PANDA E OS CARICAS 2 - 132
19 - SLIPKNOT: 5: THE GRAY CHAPTER - 130
20 - SAM SMITH: IN THE LONELY HOUR - 126
Tabela disponiblizada nas redes sociais em 08/11/2014.