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sábado, 10 de abril de 2010

Pechisbeque

Como os melhores homens de negócios, o londrino Christopher Pinchbeck (1670 - 1732), tinha um olho no lucro e outro naquilo que respondia às exigências do tempo. Havia gente que gostava de exibir joalharia vistosa mas não tinha dinheiro para comprar ouro? Era arriscado viajar pelas estradas da época, infestadas de salteadores, com as "family jewels" demasiado à vista? Pois bem, o senhor Pinchbeck oferecia a solução para o problema: uma liga de cobre e zinco — aquilo que, para toda a eternidade lusófona, em corruptela epónima do seu apelido, passaria a ser conhecido como "pechisbeque" — que, à vista desarmada dos não demasiado conhecedores, passava muito bem por ouro.

Pode ser pindérico mas, o que parece, é. Até ver. Imagino que não terá sido pelo facto de Christopher Pinchbeck se ter dedicado também à construção de "autómatos musicais" — ainda que não deixe de ser igualmente interessante... — que a Associação Fonográfica Portuguesa se tenha decidido a entrar na lógica do "pechisbeque".

Mas, numa época em que, depois do dinheiro fácil (demasiado e pacoviamente fácil), os tostões se contam um a um e os bandoleiros do "download" espreitam em cada esquina da Internet, a corporação da indústria discográfica nacional nem sequer pestanejou: o galardão de "disco de ouro" valia 20 mil cópias? Deixem-se de tretas... acaba-se com a "prata" (10 mil) e a "prata velha" passa a ser igual ao "ouro novo" (os mesmos 10 mil exemplares). A "platina" eram 40 mil? Corta-se isso por metade e 20 mil chegam e sobram.

Não nos lixem. Crise é crise. Pode ficar tudo igual mas salvam-se as aparências. É Portugal. E, que raio, o Pinchbeck até era inglês e não morreu pobre... Parece que, lá para Setembro, a "prata", em segundas núpcias, poderá ser ressuscitada para as miseráveis cinco mil cópias, a fim de "estimular os novos valores".

O que é preciso é não dar parte de fraco. A República Checa, a Áustria, a Bélgica, a Dinamarca, a Noruega, a Hungria, a Grécia ou a Irlanda também não podem cantar de galo. Toca a todos. Mas a malta safa-se... Quando "isto" acabar, logo se vê. É prata mas parece ouro. É ouro mas parece platina. O Pinchbeck é que sabia. Quando tivermos tempo, pensamos nisso a sério.

João Lisboa / Expresso, 2005

http://lishbuna.blogspot.com/2007_10_01_archive.html

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