terça-feira, 19 de junho de 2012

Música e TV

É uma espécie de ‘guerra fria’ esta que opõe as grandes multinacionais às editoras discográficas associadas aos grupos de media em Portugal. No centro estão os fenómenos musicais saídos dos programas de televisão.

A Farol, editora dos D'ZRT, FF ou Patrícia Candoso, pertence à Média Capital, grupo que detém a TVI que transmite precisamente os ‘Morangos com Açúcar’. Já a Som Livre, que edita a Floribella, embora não fazendo parte da SIC, tem uma relação privilegiada com a estação de Carnaxide e um acordo para editar todas as bandas sonoras das telenovelas da Globo transmitidas por aquele canal.

David Ferreira, da editora EMI-Valentim de Carvalho, diz que a Farol "é um exemplo extremo de concorrência desleal". E explica: "A Media Capital exige que as gravações que passam nas novelas estejam automaticamente autorizadas para inclusão nos discos com as bandas sonoras e assim alavancou, através da liderança da TVI, a Farol para uma posição de mercado que esta nunca teria por mérito próprio. Considerando que nos “ecrãs de publicidade a Farol tem acesso a condições não oferecidas a nenhuma outra editora", David Ferreira afirma que aquilo a que se assiste é um crime. “Faço votos para que as autoridades, da Comunicação Social como da Concorrência, dêem passos para o eliminar". Já Tozé Brito, apesar de preferir "não usar o termo desleal", garante que irá ser "pedido um parecer jurídico junto de especialistas na questão da concorrência".

Contactado pelo CM, Tiago Morais Sarmento, da Farol, escusou-se a comentar estas acusações afirmando apenas que "a Farol decidiu trabalhar e desenvolver o catálogo de música portuguesa dando uma oportunidade ao público português de poder ter no mercado boas obras nacionais a preços compatíveis com as suas disponibilidades". O CM tentou também ouvir a editora Som Livre, que não quis prestar declarações.

CM, Miguel Azevedo / Vanessa Fidalgo, 16/09/2006

Há vida para além da TV?

Longe da vista, longe do coração. Chega outro e toma o seu lugar. Este é o ano da Floribella. A cantora/actriz/dançarina, que se revelou num outro programa de televisão, ‘Ídolos’, e que passa o tempo a cantar que não tem nada, ganhou já quase tudo: uma popularidade invejável, o primeiro lugar do top e oito discos de platina (Os D'ZRT já estão em oitavo). Mas até quando? "O mais certo é até durar o programa", afiançam os entendidos. D'ZRT, FF, Tiago, Patrícia Candoso, 4Taste e Floribella. A pergunta impõe-se: afinal, haverá vida para além da televisão?

Para David Ferreira, presidente da editora EMI-Valentim de Carvalho, "estamos perante fenómenos televisivos que invadem a música popular e que dificilmente se conseguem imaginar sem o apoio da televisão". Para Manuel Moura Santos, agente de Rui Veloso, Jorge Palma e Ala dos Namorados, entre outros, estamos perante fenómenos de ‘marketing’ massivamente produzidos. “Não tenho dúvidas que quando terminarem os respectivos programas de televisão, eles morrem. Neste aspecto a máquina pode ser trituradora", diz. "São produtos que nem sequer são inventados pelos seus executantes. A maioria destes jovens não são músicos, não tocam e alguns nem sabem cantar. É tudo feito em estúdio".

A verdade é que só os fenómenos musicais televisivos ligados aos ‘Morangos com Açúcar’ já venderam, até ao momento, cerca de meio milhão de discos. Luís Jardim, produtor musical que já trabalhou com Sting e Bryan Adams, por exemplo, considera que "quem grava um disco por meio de uma telenovela entra pela porta baratucha da música". Por outras palavras, acaba por perder credibilidade. “Este fenómeno já o observei noutros contextos. Lá fora, os cantores fabricados pela televisão não são levados muito a sério", conta. Uma moda? "Claro que sim. Portugal sempre foi um país de modas. Primeiro foram as canções do 25 de Abril, depois as do festival da canção, agora é a vez das músicas das novelas. São coisas momentâneas, que passam rapidamente. Não acredito que daqui a alguns anos o método continue a resultar", conclui.

O tal futuro, que para Tozé Brito, vice-presidente da Associação Fonográfica Portuguesa e presidente da multinacional Universal, poderá não existir para "noventa e nove por cento destes artistas" é precisamente "a parte mais dolorosa da questão". "Criam-se ilusões em jovens que depois não têm hipóteses de singrar. Até mesmo a própria Sara Tavares, um dos poucos casos de sucesso que saiu de um programa de televisão, teve dificuldades em construir carreira. Aliás, só o conseguiu fazer alguns anos depois de ter participado no ‘Chuva de Estrelas’, porque tem uma voz prodigiosa. Isto serve como aviso à navegação: Tenham cuidado porque são pessoas descartáveis", lembra.

Fonte da editora Som Livre, que lançou o disco da Floribella, reconhece que sem o suporte televisão o sucesso da cantora era mais difícil, mas defende que a novela encontrou um nicho e que isso não é crime. "A Floribella apela ao sonho, como um conto de fadas, entra em casa das pessoas e cativa os miúdos que, entretanto, compram o disco para ter a música ao seu alcance a qualquer momento, sem ter de esperar pela hora da novela", diz. Se a banda Floribella vai continuar a ter sucesso depois da série acabar? "Isso só o futuro o dirá!", remata. João Miguel Almeida, da Farol, editora dos sucessos dos 'Morangos com Açúcar' acredita que há vida para além da televisão. "Estes projectos podem perder alguma visibilidade quando terminar a participação nos programas televisivos, mas acho que vão continuar com o sucesso que merecem", diz. "Os D'ZRT e a Patrícia Candoso já saíram dos 'Morangos' e vão fazer mais discos e concertos", exemplifica. Quem parece pouco importado com isso são os miúdos. Se D'ZRT, 4 Taste, FF ou Floribella estão ou não com os dias contados, para já "tanto lhes faz" que sobre eles se digam "coisas boas ou coisas más". Eles são os reis. E uma coisa é certa: quando estes morrerem vêm outros... ou talvez não!

CM, Miguel Azevedo / Vanessa Fidalgo, 16/09/2006

Projectos nascidos na TV tomam de assalto os tops

Dez dias bastaram que disco de Floribella atingisse a tripla platina, correspondente a 60 mil discos vendidos

No país onde só um quinto da música adquirida nas lojas e tocada nas rádios é de origem nacional, a tabela de vendas desta semana da Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) é uma séria candidata a 'case study' do ano os três primeiros lugares são detidos por projectos nacional.

Floribella, D'ZRT e FF são os autores de uma proeza que, embora não sendo virgem, raras vezes teve lugar anteriormente. Em comum a todos eles encontra-se, além da juventude dos autores e dos seus destinatários, a origem do projecto a televisão foi o berço das novas caras do estrelato nacional.

Primeiro, com "Morangos com açúcar" - rampa de lançamento dos D'ZRT e de FF - e agora com "Floribella", todos acumularam audiências televisivas tais que a transposição para os discos foi apenas uma questão de tempo.

O êxito, esmagador, surpreendeu até as próprias editoras - fortemente ligadas aos canais televisivos TVI (Farol Música) e SIC (Som Livre) -, mas não calou os críticos, como o músico Luís Varatojo, para os quais o reconhecimento popular apenas se deve "a uma estratégia das televisões no sentido de aumentar a visibilidade dos programas que deram origem a estes artistas".

"Dizer que o sucesso se deve apenas ao marketing não é 100% exacto. Tem que existir sempre uma mistura entre talento e marketing", afirma José Serrão, director da Som Livre, a editora que em apenas 10 dias vendeu 60 mil exemplares de "Floribella".

Director-geral da AFP. Eduardo Simões concorda "Se não existisse uma adequação com o produto original, o acolhimento não seria o mesmo".

"Subprodutos"?

Pela presença lusa significativa no 'top 10' - Tony Carreira e Paulo Gonzo também integram a tabela -, a questão impõe-se será que os portugueses se reconciliaram de vez com a sua música? A opinião não é unânime. Enquanto Luís Varatojo concebe os novos projectos como "subprodutos de telenovelas" e Eduardo Simões lamenta que "outros artistas nacionais com muito talento não obtenham idêntico êxito", há também quem aplauda o fenómeno. É o caso de José Cid, que vê nos novos fenómenos a prova de uma crescente apetência dos portugueses pelas bandas nacionais, "o que durante anos a fio não aconteceu".

O excessivo pendor comercial não preocupa sobremaneira o fundador do Quarteto 1111, que reserva até palavras elogiosas para os D'ZRT "Já os vi num espectáculo e gostei. Como são muito novos, ainda podem evoluir mais".

Depois de, 2005, ter sido o "ano D'ZRT", o estatuto de revelação do momento parece agora estar em vias de ser entregue a "Floribella". E enquanto não chega ao mercado a linha completa de vestuário, a Som Livre apresta-se para lançar um disco com a banda-sonora da novela e um DVD.

"O segredo do sucesso? É uma música que tocou no coração das crianças a partir dos três anos", diz José Serrão.

Sérgio Almeida / JN, 07/07/2006

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